Síndrome do cólon irritável pode ser diagnosticada pela ausculta do peristaltismo

O diagnóstico da síndrome do cólon irritável (SCI) pela ausculta do peristaltismo registrada por um dispositivo não invasivo pode eliminar a necessidade de dispendiosos exames de colonoscopia, sugere um novo estudo.

“Depois de ver tantos casos de síndrome do cólon irritável ao longo dos anos, decidi que precisávamos de algo para evitar que todos os pacientes precisassem fazer todas essas investigações diagnósticas caras”, declarou o Dr. Barry Marshall, médico da University of Western Australia em Crawley.

“Mesmo que o número de colonoscopias seja reduzido em, digamos, 10%, isso já representaria uma economia de bilhões de dólares para os Estados Unidos”, afirmou o Dr. Marshall para o Medscape.

“Este é um dos grandes momentos da gastroenterologia. Estamos analisando as doenças sob novas perspectivas e utilizando as novas tecnologias”.

A síndrome do cólon irritável acomete cerca de 11% da população mundial, mas o diagnóstico é feito tipicamente pela colonoscopia, a fim de excluir câncer e/ou outras doenças.

A inteligência artificial usada no ensaio clínico de prova conceitual, apelidado de Noisy Guts, advém de um dispositivo semelhante ao que detecta a presença de cupins no interior das paredes das casas.

Mesmo que o número de colonoscopias seja reduzido em, digamos, 10%, isso já representaria uma economia de bilhões de dólares para os Estados Unidos.

“Quando o aparelho identifica determinados tipos de ruído no interior da madeira, reconhece a presença dos cupins”, disse o Dr. Marshall, que, em 2005, foi laureado com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina junto com o colaborador Dr. Robin Warren, por descobrir o papel da Helicobacter pylori na etiologia da gastrite e da úlcera péptica.

“Isso me fez pensar”, explicou o pesquisador, na Digestive Disease Week 2018. “Durante centenas de anos os médicos auscultaram o estômago com um microfone – isso não é novidade –, mas o faziam por cerca de apenas 20 segundos”.

Com esse dispositivo de inteligência artificial, “poderíamos auscultar durante horas, realmente ouvindo os diferentes pontos e realizar testes provocativos com refeições”, disse.

“Poderíamos inserir todas essas informações em um mecanismo de aprendizado de inteligência artificial e afirmar: ‘trata-se de síndrome do cólon irritável'”.

Projeto Noisy Guts

Dr. Marshall e colaboradores desenvolveram um protótipo de cinta que usa técnicas de aprendizado por máquina (Machine Learning) para identificar os padrões dos sons produzidos no abdome.

Os sons da síndrome do intestino irritável

Na primeira fase do estudo, foram usadas gravações de 31 pacientes com síndrome do cólon irritável e de 37 participantes saudáveis, para construir um modelo de índice acústico que diferenciasse os sons intestinais da síndrome do cólon irritável dos sons intestinais sem relação com a síndrome.

Os ruídos intestinais foram gravados durante duas horas após os participantes terem jejuado, e então durante 40 minutos após uma refeição padronizada. Nesta fase, o dispositivo alcançou 90% de sensibilidade e 92% de especificidade para o diagnóstico da síndrome do cólon irritável, de acordo com um método estatístico informatizado de validação cruzada com uma exclusão.

Na segunda fase do estudo, testes independentes em 15 pacientes com síndrome do cólon irritável e 15 participantes saudáveis alcançaram 87% de sensibilidade e 87% de especificidade para o diagnóstico da síndrome do cólon irritável.

É provável que a motilidade intestinal esteja na raiz da síndrome do cólon irritável. Os “ruídos peculiares” produzidos pelo intestino das pessoas com síndrome do cólon irritável são “muito, muito sutis e difíceis de auscultar, mas um computador é capaz de filtrá-los”, disse o Dr. Marshall.

“Além disso, é possível identificar a porção do tubo gastrointestinal da qual o barulho é proveniente – cólon, intestino delgado ou estômago”, explicou.

“Posicionamos quatro microfones em diferentes partes do abdome. Por ora, conseguimos detectar se o ruído é normal ou não, e se é compatível com a síndrome do cólon irritável”.

Agora, a tecnologia precisa ser reproduzida e testada em um número muito maior de pacientes, acrescentou.

Isso é “interessante. Tudo o que diminua a quantidade de exames invasivos é de grande valia”, declarou o Dr. Ashton Harper, médico e chefe de assuntos médicos da Protexin, em Somerset, no Reino Unido.

“Eu não conhecia, e não cogitaria que poderia ser confiável, porque nunca foi usado antes”, disse o Dr. Harper ao Medscape.

“É impressionante que consiga diferenciar os pacientes com síndrome do cólon irritável dos pacientes saudáveis”, afirmou a Dra. Susan Lucak, médica da Weill Cornell Medicine e do Lenox Hill Hospital, em Nova York.

Seria ótimo se a tecnologia pudesse ser validada para outras doenças, acrescentou ao Medscape.

O Dr. Barry Marshall é coinventor da tecnologia e obterá benefícios materiais se ela for comercializada. O Dr. Ashton Harper e a Dra. Susan Lucak informaram não possuir conflitos de interesse relacionados ao tema.

Digestive Disease Week (DDW) 2018: ResumoTu2017. Apresentado em 5 de junho de 2018.

Fonte: Medscape

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